De uma dica em uma loja de discos de São Paulo a uma acusação de 7" em vinil contra o Estado brasileiro, a jornada de uma artista da periferia encontrando seu lar.
Todo disco tem uma história. Algumas são simples. Outras chegam por uma corrente de confiança, intuição e as pessoas certas aparecendo no momento certo.
"Quanta Gota" o single de estreia de ANANDA , lançado pela Morato Records / Tropical Diaspora Records® (número de catálogo TDR077), pertence à segunda categoria.
Foi assim que aconteceu.
O Primeiro Contato
Tudo começou com uma conversa em um evento chamado Vai Na Fé aqui em São Paulo.
Eu estava tocando como convidado, fazendo meu set, quando o Dj Paulão, o dono da Patuá Discos, uma das mais importantes lojas de discos da cidade, me chamou de lado.
Paulão não é apenas um lojista. Ele é um conector. Uma pessoa que conhece o território, as pessoas e a música que importa. Ele tem a reputação de conectar os artistas certos com os selos certos.
Ele disse: "Tem uma mulher. Ela quer produzir seu primeiro single. Ela tem algo a dizer. E eu disse a ela: Tropical Diaspora Records® é o selo que ela deveria procurar."
Eu ouvi. Eu sabia que o julgamento de Paulão não era casual. Ele entendia o que a Tropical Diaspora Records representa: anti-colonial, física primeiro, enraizada na periferia.
Então eu disse: "Vamos nos encontrar."
O Primeiro Encontro
Algumas semanas depois, entrei na Patuá Discos — a loja do Paulão, um espaço sagrado de vinis, conversas e comunidade. Foi lá que conheci ANANDA pela primeira vez.
Ela não era o que eu esperava. Não porque não fosse impressionante, ela era. Mas porque sua presença era tão calma, tão enraizada, tão certa. Ela não é uma pessoa que pede permissão. Ela é uma pessoa que afirma fatos.
Sentamos entre os discos. Ela me contou sua história: Francisco Morato. Uma família de mães solo pretas. Uma vida como professora de física e matemática. Engenheira. Permacultora. Co-fundadora do coletivo anti-genocídio Alfanje.
Então ela me mostrou suas letras. Muitas letras. Uma vida inteira delas.
Eu as li. Depois as li de novo.
"Neoliberalismo, severa exploração. / Todos perversamente, toda globalização. / Escravismo, imperialismo para colonização. / Funda necropolítica exterminando a nação."
Esta não era uma compositora tentando encontrar um refrão. Era uma testemunha forense nomeando a cena do crime.
Eu sabia que a Tropical Diaspora Records® tinha que ser o lar para essa música. Mas quais letras deveríamos produzir primeiro? Essa pergunta levaria tempo para ser respondida.
As Reuniões — E uma Carona para Casa
Nas semanas seguintes, nos encontramos várias vezes para discutir qual de suas muitas letras se tornaria o primeiro single. ANANDA trouxe cadernos, páginas soltas, gravações feitas em seu celular. Cada reunião revelava mais camadas. Ela não é apenas uma letrista — ela é uma arquivista da dor e resistência de seu território.
Uma dessas reuniões se estendeu até tarde. Muito tarde. Estávamos em um café perto da Praça da Sé, no centro de São Paulo, e a cidade já havia escurecido.
Olhei para ANANDA. Ela parecia cansada, mas focada. Ela tinha um longo caminho para casa.
"Eu te dou uma carona," eu disse.
Ela sorriu. "Tem certeza? É longe."
"Tenho certeza."
Caminhamos até o carro. Comecei a dirigir. O centro de São Paulo deu lugar à interminável expansão da periferia. Concreto. Viadutos. Terminais de ônibus. A cidade se desfazendo em cidades dormitório.
A viagem para Francisco Morato leva mais de uma hora. Não é um trajeto — é uma travessia entre mundos.
A Primeira Apresentação
Em algum lugar daquela estrada escura, ANANDA pegou o celular. Ela rolou suas notas de voz. Então olhou para mim.
"Quero que você ouça algo," ela disse.
O riddim que veio pelos alto-falantes foi feito por Dub Manual — Olinda Sanzyo Rafael , outra artista da Tropical Diaspora Records®. Uma faixa profunda, envolvente e percussiva. Ecos de dub. Espaço entre as notas. O tipo de ritmo que parece um batimento cardíaco desacelerado.
E então ANANDA começou a cantar.
Ela cantou "Quanta Gota" pela primeira vez, para mim, pelo menos.
Não em um palco. Não em um estúdio. No meu carro, em algum lugar entre São Paulo e Francisco Morato, à noite, com as luzes da cidade se esvaindo atrás de nós.
Sua voz encheu o carro. As letras soaram diferente naquele espaço — fechado, em movimento, temporário. A pergunta repetida como uma oração ou uma acusação:
"Com quanta gota de sangue pisado, sofrido e chorado, suado e apagado — que se constrói a burguesia e o Estado?"
Eu não disse nada. Apenas dirigi. Apenas ouvi.
Quando a deixei em Francisco Morato, eu sabia. Esta era a faixa. Este era o single. Dub Manual criará uma versão Dub de "Quanta Gota"
A Busca por um Produtor
Eu sabia que ANANDA precisava de um produtor com a sensibilidade certa, alguém que entendesse a periferia, que entendesse dub e reggae e música afro-brasileira, que não suavizasse as arestas ou amenizasse a mensagem.
Novamente, foi Dj Paulão quem me deu a dica.
"Fale com Zé Nigro,"
Zé Nigro , duas vezes vencedor do Grammy. Um produtor de São Paulo com raízes profundas no underground da cidade. Um homem que sabe a diferença entre produção e achatamento. Alguém que trabalha com o artista, não sobre ele.
Eu o contatei. Conversamos. Enviei a ele as letras de ANANDA e as gravações brutas. Ele as leu. Ele ouviu.
Sua resposta foi imediata: "Preciso trabalhar com ela."
A Produção
Zé Nigro e ANANDA se encontraram. Eles trabalharam juntos em seu estúdio, Navegantes, em São Paulo. Ele não tentou mudá-la. Não pediu que ela suavizasse a raiva. Em vez disso, ele construiu uma paisagem ao redor de sua voz, uma paisagem sonora percussiva, assombrosa, com influências de dub, que honrava os ritmos afro-brasileiros de sua ancestralidade enquanto avançava para algo novo.
As letras permaneceram intocadas. A voz de ANANDA, crua, poderosa, matriarcal, permaneceu no centro.
Zé Nigro e a Tropical Diaspora Records® co-produziram o single. O resultado foi exatamente o que esperávamos: uma canção que não compromete, não pede desculpas e não pede perdão.
A Versão Dub
O riddim que Dub Manual havia criado, aquele que ANANDA cantou no meu carro naquela noite, não desapareceu. Ele se tornou a base para uma versão dub especial de "Quanta Gota", criada por Olinda Sanzyo Rafael (Dub Manual). Esta versão aparece como uma peça complementar ao original, um eco profundo do território e da jornada.
A Masterização
Para a masterização, precisávamos de alguém que entendesse reggae e dub em nível celular. Alguém que soubesse fazer o grave soar sem perder os detalhes. Alguém que tivesse passado anos na cultura.
Essa pessoa foi Buguinha Dub,
Ele pegou a faixa e deu-lhe profundidade, peso e espaço. A versão instrumental — que aparece no lado AA do vinil de 7 polegadas — foi masterizada com cuidado especial, revelando a arquitetura da produção de Zé Nigro. Os ossos da canção. A percussão. O silêncio entre as notas.
A Arte — Por Instrução de ANANDA
Para a identidade visual, trabalhei como Dj GArRincha, designer e proprietário da gravadora. Mas a direção não veio de mim.
ANANDA mesma deu as instruções.
Ela sabia exatamente o que queria: seu rosto fundido com as linhas de contorno de elevação topográfica de Francisco Morato,
Segui suas instruções precisamente. O resultado não é minha visão, é a dela. Eu fui meramente o instrumento de sua direção.
Berlim e os Textos
Depois de tudo isso — depois das reuniões, da carona para casa, da primeira apresentação de "Quanta Gota" no meu carro, da produção com Zé Nigro, da masterização por Buguinha Dub — voltei para Berlim.
Sentei-me com Dr. Sócrates
Ele ouviu. Então começou a escrever.
Dr. Sócrates escreveu os textos em torno desta produção — as biografias, os manifestos, as notas de lançamento, o enquadramento político. Ele deu linguagem ao que todos nós sentimos. Ele conectou as letras de ANANDA a Fanon, à necropolítica, à luta anticolonial. Construímos o conceito Morato Records.
Sem suas palavras, o disco ainda seria poderoso. Mas com elas, tornou-se uma declaração.
O Resultado
"Quanta Gota"
Desde a primeira dica no Vai Na Fé, ao encontro na Patuá Discos, à carona para casa em Francisco Morato, à primeira apresentação no meu carro, à produção no Navegantes, à versão dub de Dub Manual, à masterização por Buguinha Dub, à arte dirigida pela própria ANANDA, aos textos escritos por Dr. Sócrates em Berlim — este disco chegou através de uma corrente de pessoas que acreditaram que a periferia merece ser ouvida, não explorada.
ANANDA canta pelas mães de Francisco Morato. Pelos 60% da juventude periférica sem antecedentes criminais que já sofreram violência policial. Por cada gota de sangue que construiu o Estado brasileiro.
Sem perdão. Sem reparação. Apenas o registro de sangue.
Esta é a sua estreia. Esta é a Morato Records. Este é apenas o começo.