A História do Dj GARinchA, Dr.Sócrates, Tropical Diaspora® Party e Tropical Diaspora Records®

Na década de 1990, troquei a selva de pedra tropical de São Paulo por outra selva de pedra no Norte da Europa, Berlim. Um imigrante, um estrangeiro, um refugiado, um "sul-americano" em outra diáspora, fugindo da catastrófica situação econômica e política no Brasil, decidi compartilhar minha paixão pela herança musical como Dj GArRinchA. Não importa a política antiga e atual no Brasil, voltemos para onde tudo começou, para mim, pelo menos. No início dos anos 1990, o mapa político do mundo viu profundas mudanças com a Alemanha e a outrora dividida cidade de Berlim no epicentro. Antes, o Muro de Berlim não dividia apenas esta cidade, era também a manifestação mais óbvia da rachadura política que corria pelo mundo após a Segunda Guerra Mundial. Pouco depois da queda do muro, todo o Bloco Oriental começou a cambalear e finalmente desabou.

Após a reunificação, muitos alemães ocidentais, juntamente com pessoas de todo o mundo, vieram para Berlim. Outros de Berlim Oriental mal podiam esperar para partir. Abandonados por seus antigos proprietários, lugares nos distritos orientais foram ocupados. Bares sem licença e, portanto, ilegais surgiam em cada esquina e desapareciam ou se mudavam para um lugar diferente em uma semana. Uma vibrante cena artística com galerias recém-abertas surgiu em casas deterioradas. Chegar a Berlim nos anos 1990 era como entrar em um laboratório com transformações ocorrendo em cada esquina e afetando todos os aspectos da vida. Essa transição gerou um vácuo que fazia as pessoas se sentirem quase como criadoras, moldando parte do mundo de amanhã, experimentando coisas novas enquanto o velho recuava e o novo ainda estava por vir. Em resumo, Berlim tornou-se o centro da jovem subcultura na Europa.

Nesse espírito, um novo movimento nasceu, que chamo de "Modo Latino-Americano" da subcultura de Berlim. Entre os primeiros lugares onde esta cena ainda por nascer se reunia estava o Freitags Bar (Alemão para Bar de Sexta-feira), um dos vários bares sem licença no centro da antiga parte oriental da cidade. Para mim, este lugar encarnava perfeitamente o espírito daquela época. Somente pessoas que sabiam de sua existência vinham a este lugar sombrio e cavernoso no porão de um edifício pré-Segunda Guerra Mundial. Cada vez havia o risco de a festa ser cancelada pela polícia, o que tornava cada evento não apenas ligeiramente aventureiro, mas ainda mais precioso. Graças ao afeto latino-americano do anfitrião, música e bebidas da América do Sul ditavam o tom. Os DJs que se apresentavam ali ainda não tinham nomes e tocavam músicas que ninguém conhecia, o coquetel brasileiro Caipirinha ainda tinha o encanto da novidade, sua base de rum Cachaça era uma raridade e bastante cara.

Inicialmente como convidado naquela caverna sombria, depois como "funcionário" sentado no andar de cima à luz de velas, eu era o porteiro. Depois de um tempo, comecei a fornecer compilações de CDs com música brasileira para os rapazes que tocavam música no porão, ou seja, DJs, e de repente pude ouvir aquela música sendo tocada repetidamente nas festas lá embaixo. A consequência lógica foi tocar minhas próprias compilações, e este também foi o começo. Depois de um tempo, eu era um residente e comecei a mixar música brasileira, primeiramente com as conhecidas músicas latino-americanas espanholas e depois com música balcânica, um estilo que caiu no gosto das pessoas no início dos anos 90. Assim, promovemos a festa no Bar Freitag's quase todas as semanas e um dia um amigo meu veio até mim e perguntou "... quem é essa cantora que você toca toda semana no seu set...? com essa voz incrível!" minha resposta foi quem mais senão Elza Soares!

Outra sexta-feira no bar e esse amigo veio novamente até mim para dizer que sabia quem era essa cantora, ela era a esposa de Garrincha! Depois disso, ele disse... "você também é o DJ Garrincha..." e como não havia uma noite em que eu não tivesse tocado Elza Soares, aceitei essa sugestão. Assim, naquela noite, naquele porão, nasceu o Dj Garrincha. Não apenas ganhei um nome de DJ, depois do meu "batismo" todos começaram a ter nomes de DJs no bar e alguns deles estão ativos até hoje em Berlim, como Dr. Sócrates e Andy Loop em Barcelona (aliás, o cara que perguntou na história acima).

Mas a experiência pessoal mais impressionante para mim na época foi em 1996, após o show de Chico Science & Nação Zumbi, quando conheci esses músicos no Freitags Bar. Sim, Chico Science estava lá, naquele mesmo bar de porão na Mulackstraße, um lugar que, infelizmente, devido à gentrificação, não carrega mais o sabor dos anos 1990. Para ressaltar não apenas a importância e o significado deste lugar no início dos anos 1990, mas também seu efeito, devo acrescentar que os eventos latino-americanos mais populares em Berlim hoje são produzidos e organizados por pessoas que costumavam ser frequentadoras assíduas do Bar Freitag's e que continuo encontrando nesses eventos, como hoje no: TROPICAL DIASPORA em Berlim.

Um dos encontros duradouros neste porão existente hoje foi aquele com o cara que fez o "serviço de porteiro" depois de mim, o atual DJ residente Dr. Sócrates, sua definição de Diáspora Tropical não poderia ser melhor...

Conheço Dj GARinchA há muitos anos. Ambos compartilhamos o amor por música não convencional, sem rótulos ou preconceitos. Compartilhamos muitas sessões de DJs, alguns bons momentos, outros ruins. Mas não desistimos do nosso sonho de coletar experiências musicais que não se encaixam exatamente no que o mainstream espera de DJs que incendeiam a pista de dança. Como Dj GARinchA me falou sobre montar uma "diáspora tropical" musical, apoiando bandas locais e boa música, eu não poderia dizer não. Para mim, "diáspora" significa o movimento constante em busca de experiências musicais baseadas na vida, o viajar de ritmos que são resultado tanto do sofrimento e da exploração quanto de um alegre sentido de vida.

"Tropical Diaspora" se apresenta no passado em um local emblemático onde tentamos criar um espaço para o compartilhamento empático. Em vez de profissionalismo de mercado, preferimos enfatizar um amadorismo ingênuo e verdadeiro, embora não em um sentido pejorativo. Reivindicamos o direito de sermos amadores da pista de dança, ou seja, literalmente, amantes, "amadores" como chamamos em português. Rodeada por um oceano de mainstream, a festa "Tropical Diaspora" é uma ilha de, simplesmente, música. Esta é uma música que nasce crua da vida das pessoas. É orgânica, não manufaturada; ela cresce das histórias da vida. Nós respeitamos isso. "Tropical Diaspora" significa música sem conservantes, mas como ela simplesmente é: "Tropical Diaspora", o lugar para estar em Berlim.

Posfácio – Berlim Antes e Agora: O Antagonismo Total

A Berlim descrita acima – um laboratório de transformação, um ímã para fugitivos, refugiados e ocupantes, um lugar onde bares sem licença brilhavam em porões e cada noite parecia um ato de criação – não existe mais. O que antes era uma cidade de aventura precária, aluguéis baixos e sonhos coletivos tornou-se seu oposto.

Hoje, Berlim é gentrificada. Os mesmos distritos onde o Freitags Bar vibrava com o risco de batidas policiais agora estão cheios de supermercados orgânicos, espaços de co-working e bares de coquetéis que cobram €30–35 por uma Caipirinha – se você conseguir entrar. Os artistas, DJs e porteiros que definiram os anos 1990 foram expulsos. Em seu lugar, surge uma nova figura: o porteiro celebridade, não o amigo à luz de velas na entrada, mas o segurança de lugares como o Berghain, que decide seu valor com base em roupas, potencial no Instagram e uma aura de “cool” que nada tem a ver com música ou sobrevivência.

Esse porteiro não protege uma comunidade escondida. Ele protege a exclusividade para hipsters, turistas e pessoas com dinheiro. A fila lá fora não é mais sobre aventura compartilhada – é uma performance de status. O espírito dos anos 90 – imprudente, caloroso, lindamente imperfeito – foi comodificado, embalado e vendido de volta como uma marca. O bar sem licença sumiu. O porão é um loft de luxo.

Berlim é agora apenas mais uma cidade feita para pessoas com dinheiro. Os aluguéis triplicaram, quadruplicaram. As mesmas forças que antes a tornaram um refúgio para os deslocados – espaço barato, ambiguidade legal, um vácuo de poder – foram revertidas. O muro se foi há muito tempo, mas um novo muro invisível surgiu: um construído com drinks de €30, listas de convidados selecionadas e seguranças que nunca sorriem.

E a violência não é mais apenas econômica. A polícia de Berlim – a mesma instituição que um dia vigiou o Muro em ruínas – agora reprime manifestantes pró-palestinos e anti-genocídio com força bruta. Eles espancam manifestantes, lançam spray de pimenta em multidões e prendem pessoas por gritar palavras como “Liberdade” ou “Palestina”. Certas frases são censuradas pelo estado: “Do rio ao mar”, “Parem o genocídio”, até mesmo a simples exibição de um keffiyeh palestino em contextos de protesto foi proibida ou criminalizada. A cidade que um dia se orgulhou de ser um refúgio para a contracultura e a liberdade de expressão agora silencia aqueles que falam contra a morte em massa. O porteiro do Berghain é uma piada comparado ao porteiro de um protesto – o policial que decide se você vai para casa ou para a cadeia.

A Tropical Diaspora Records nasceu da diáspora, do movimento e da sobrevivência. Essa Berlim está morta. O que resta é um fantasma polido e superfaturado – uma cidade que lembra seu eu anterior apenas como uma campanha de marketing para hipsters ricos, enquanto sua polícia esmaga as vozes dos oprimidos.

Isso não é nostalgia. É um obituário para uma cidade que virou as costas para as pessoas que a tornaram grande. E um reconhecimento de que a próxima Tropical Diaspora terá que encontrar outro lar.