Desenraizada de suas raízes étnicas, como a maioria dos afrodescendentes no Brasil, Ananda vem de uma família de mães negras solo que aprenderam a lutar desde o berço por um lugar em um mundo de racismo e exploração. O processo de branqueamento e extermínio não silenciou seu compromisso apaixonado com os ideais das comunidades negras, pobres e marginalizadas para quem ela canta com uma voz potente, cheia de raiva e violência. Ela nomeia a opressão sem disfarces, e ao nomeá-la, um processo de reparação sela a união dos oprimidos.
A música de Ananda é social e comunitária, sua voz expressa um mundo fragmentado que precisa ir além de seus limites.
ANANDA: A Periferia Fala – e Não Pede Permissão.
Francisco Morato, Grande São Paulo. Uma cidade dormitório. Um lugar onde os trabalhadores dormem, mas não vivem. Um território apagado dos mapas oficiais e abandonado pelo Estado. É também uma das periferias mais violentas de toda a região metropolitana — um lugar onde, como documenta o coletivo Alfanje, “60% dos jovens periféricos sem antecedentes criminais já sofreram violência policial”, e “a cada quatro horas, um jovem negro morre violentamente em São Paulo.”
É aqui que Fernanda Camila Gomes do Nascimento — conhecida como ANANDA — nasceu, cresceu e se tornou uma matriarca.
Uma Vida de Luta, Não uma Carreira.
Antes mesmo de entrar em um estúdio de gravação, ANANDA já havia vivido as letras que um dia escreveria. Filha de Doroti, neta de Dona Diva. Mãe de Felipe e Heitor. Permacultora. Professora de física e matemática. Engenheira civil por formação. Cartógrafa por predestinação. Educadora popular e articuladora social por vocação.
Ela vem de uma família de mães negras solo que aprenderam a lutar desde o berço por um lugar em um mundo de racismo e exploração. O processo de branqueamento e extermínio não a silenciou. Em vez disso, a radicalizou.
Negada suas raízes étnicas — como a maioria dos afrodescendentes no Brasil, forçada a nomenclaturas hegemônicas e racistas como pardo, moreno, mulato — ela começou uma busca incessante por suas origens. Ela as encontrou não em linhagens de sangue, mas na ação coletiva. Ela aquilombou — encontrou seu quilombo junto com outros.
Alfanje e a Luta Antigenocídio.
ANANDA é cofundadora e membro central do Alfanje — um coletivo de moradores de Francisco Morato que acredita na luta por igualdade e atua contra o genocídio da juventude negra. O próprio nome do coletivo é uma arma: alfanje é uma lâmina curva de origem afro-diaspórica, usada na capoeira e na resistência.
O Alfanje promove ações afirmativas através do impacto sociocultural, mobilizando comunidades em torno de questões étnico-raciais e de gênero. Valorizam as manifestações culturais tradicionais da diáspora negra, utilizando o samba, hip hop, reggae, jazz e funk como ferramentas pedagógicas para dialogar com a juventude. Democratizam espaços públicos por meio de oficinas, rodas de conversa, cineclubes e eventos político-culturais focados em mulheres negras, crianças e jovens da periferia.
Por anos, ANANDA tem estado no centro deste trabalho — como professora voluntária da Uneafro-Quilombaque, como Conselheira Municipal da Comunidade Negra de Francisco Morato, como membro da Comissão de Combate ao Racismo da OAB em Francisco Morato, e como articuladora no Centro de Defesa de Direitos Humanos Carlos Alberto Pazzini.
Ela ajudou a organizar audiências públicas contra a redução da maioridade penal. Participou do Seminário Internacional Juventude e Vulnerabilidades na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. Fez parte do Movimento Cultural das Periferias (MCP), que ajudou a criar a Unidiversidade de Saberes — um modelo colaborativo de universidade gratuita. Trabalhou no TICP (Território de Interesse para a Cultura e a Paisagem), um instrumento de planejamento urbano participativo. Co-criou a Rede de Defesa e Proteção Contra o Genocídio.
Ela dedicou toda a sua vida adulta a construir a própria infraestrutura de resistência da qual sua comunidade depende.
Quanta Gota, seu primeiro single produzido pela Tropical Diaspora Records®
Agora, ela canaliza tudo isso — cada audiência, cada oficina, cada lágrima, cada gota de sangue — para a música.
Quanta Gota, seu single de estreia, é produzido em cooperação com o duas vezes ganhador do Grammy Zé Nigro e a Tropical Diaspora Records®. A letra é escrita por ANANDA. A música é composta por ANANDA em parceria com Zé Nigro, gravada em seu estúdio Navegantes em São Paulo. A masterização foi feita por Buguinha Dub, um dos mais respeitados engenheiros de reggae e dub do Brasil. Além disso, uma versão dub especial do single foi criada por Olinda Sanzyo Rafael, também conhecido como Dub Manual. A identidade visual marcante e o design artístico são de Dj GArRincha, baseados no conceito visual da própria Nanda.
A canção não é uma faixa convencional. É uma denúncia. Uma pergunta feita à história. Um registro escrito em sangue.
Sobre uma paisagem sonora assombrosa e percussiva que ecoa os ritmos da ancestralidade afro-brasileira e da periferia contemporânea, ANANDA nomeia seus inimigos: neoliberalismo, imperialismo, machismo, racismo estrutural e a "necropolítica" que autoriza o extermínio de seu povo.
O refrão se repete como uma contagem devastadora:
"Com quanta gota de sangue pisado, sofrido e chorado, suado e apagado — que se constrói a burguesia e o Estado? Que se constrói a favela e o Estado? Que se constrói a senzala e o Estado?"
Ela invoca a senzala não como história distante, mas como a ancestral direta da favela moderna. Para ANANDA, não há ruptura entre a violência colonial e a brutalidade policial contemporânea. Há apenas continuidade. E não pode haver perdão, nem reparação, para as lágrimas de mães derramadas no concreto.
Quem Disse Que Racismo Não Existe no Brasil?
A canção termina com uma rejeição furiosa da mentira mais conveniente do Brasil. "Quem foi que disse que não existe racismo no Brasil? Nunca colou lá na quebrada e nunca sentiu?"
E então o grito final — partes iguais ferida e arma:
"Brasil, quem te pariu?"
Mais Que uma Artista
ANANDA não busca aprovação. Ela não encena a dor para o consumo. Ela testemunha. Ela documenta. Ela nomeia.
Ela canta pelas mães de Francisco Morato. Pelos 60% dos jovens periféricos sem antecedentes criminais que já sentiram a violência do Estado. Pelos três em cada quatro pessoas mortas pela polícia que são negras. Pelos 2% de estudantes negros nas universidades brasileiras. Por cada jovem negro assassinado a cada quatro horas em São Paulo.
Ela canta porque, como declara Alfanje: "Acreditamos que uma sociedade justa só será possível quando o extermínio da juventude negra e periférica não for mais uma realidade para a periferia."
ANANDA não é uma artista para observar. Ela é uma artista para ouvir. Para acreditar. Para seguir no fogo.
"Eu venho da favela. Onde os pobres são predominantemente negros. Marginalizados, apagados, maltratados e executados pelo Estado."
— ANANDA, "Quanta Gota"
Fatos Rápidos
| Single de Estreia | Quanta Gota (Tropical Diaspora Records®) |
| Letra | ANANDA |
| Composição Musical | ANANDA e Zé Nigro |
| Produção | Zé Nigro para Tropical Diaspora Records® |
| Estúdio de Gravação | Navegantes, São Paulo |
| Masterização | Buguinha Dub |
| Versão Dub | Olinda Sanzyo Rafael (Dub Manual) |
| Design Artístico | Dj GArRincha |
| Estilo Musical | Música de protesto político, percussão afro-brasileira, spoken word, rap periférico, samba, reggae, hip hop, jazz, funk |
| Temas Centrais | Necropolítica, racismo estrutural, violência de Estado, legado da escravidão, resistência matriarcal, genocídio da juventude negra, mito da democracia racial |
| Pergunta Central | "Com quanta gota de sangue se constrói o Estado?" |
| Afiliação | Coletivo Alfanje, CDDH Carlos Alberto Pazzini, Uneafro, Movimento Cultural das Periferias, Rede de Defesa Contra o Genocídio |
| Selo | Morato Records, uma divisão da Tropical Diaspora Records® |
