O projeto de pesquisa O Museu como um Bem Comum baseia-se em uma análise crítica do mundo da arte contemporânea, que se estrutura como um sistema profundamente desigual e competitivo. A realidade é que as pessoas que trabalham no mundo da arte estão sujeitas a processos de exclusão social e à apropriação de oportunidades que resultam em vantagens competitivas, refletidas em seus rendimentos. Essa "tragédia das artes", análoga à tragédia dos bens comuns teorizada por Garrett Hardin, não é um destino natural e inevitável, mas o resultado de uma escassez artificialmente criada e de uma gestão hierárquica do acesso aos recursos.
Diante dessa situação, a obra da artista Mierle Laderman Ukeles se apresenta como um argumento central e inspirador. Em sua arte de manutenção, Ukeles mostra que o trabalho doméstico e de limpeza – historicamente invisibilizado e feminizado – é o fundamento sobre o qual se sustenta qualquer prática artística ou cultural. Não há liberdade ou autonomia sem o trabalho envolvido na reprodução das condições de produção. Sua proposta de transformar o museu em um lar, onde todas as tarefas necessárias são visíveis e compartilhadas, antecipa o modelo de justiça contributiva defendido pelo projeto.
Com base na pesquisa de Elinor Ostrom, vencedora do Prêmio Nobel de Economia de 2009, que demonstrou que os recursos de uso comum podem ser geridos coletivamente de forma sustentável sem a necessidade de privatização ou controle estatal, o museu ou centro de arte é reimaginado como um ecossistema de bens comuns. Ostrom mostra que a cooperação, a confiança mútua e a ação coletiva são possíveis. Aplicado ao mundo da arte, isso significa repensar museus e centros de arte como bens comuns: infraestruturas cuja manutenção e gestão devem ser responsabilidade compartilhada de todos aqueles que contribuem para eles – sejam artistas, profissionais ou pessoal de manutenção – uma vez superadas as divisões de trabalho hierárquicas baseadas em classes que prevalecem nas instituições atuais.
Por fim, a justiça contributiva é proposta como um modelo normativo. A igualdade de oportunidades não é alcançada apenas pela redistribuição de bens (oportunidades, recursos, reconhecimento), mas pelo compartilhamento do trabalho, incluindo tarefas rotineiras e menos recompensadoras. Se todos participam das tarefas necessárias para a manutenção da instituição, então todos também têm a oportunidade de desenvolver habilidades complexas e de se envolver na gestão do espaço. Exemplos como as práticas deliberativas do coletivo de arte PSJM, com suas assembleias de bairro e processos de democracia direta, ilustram como uma estética horizontal é possível. Um museu concebido dessa forma deixa de ser um mausoléu ou o playground das elites (filantrocapitalismo) e se torna um verdadeiro bem comum, um lar onde liberdade e igualdade são inseparáveis.