Por que enviamos sinais, não boletins informativos?
"A palavra é tecnologia colonial."
Isso não é uma provocação. É um diagnóstico.
Quando nos sentamos para criar nossa primeira transmissão — Sinais da Encruzilhada nº 1 — nos deparamos com uma pergunta que todo projeto que se declara anticolonial precisa responder: Usamos as ferramentas do colonizador ou as rejeitamos?
A resposta não é simples. Usamos o Mailchimp. Escrevemos em inglês, uma língua que não é a nossa. Prensamos discos em fábricas movidas a energia de origem desconhecida. Não somos puros. Não somos autênticos. Não somos a voz intocada da periferia. Essa voz não existe.
Mas a recusa não é o mesmo que inocência. A recusa é uma prática. São mil pequenas recusas dentro de sistemas dos quais não podemos escapar completamente.
O problema com o termo "boletim informativo"
A palavra "boletim informativo" deriva das comunicações internas corporativas, dos departamentos de relações públicas e do marketing direto por mala direta. É uma ferramenta criada para impulsionar produtos, otimizar taxas de abertura e segmentar o público em dados demográficos. É o equivalente linguístico de um contêiner de transporte — eficiente, padronizado, frio.
Pressupõe que você seja um consumidor. Pressupõe que sejamos uma marca. Pressupõe que a comunicação seja um funil no final do qual você compra algo.
Recusamos esse contêiner.
Como escreve o Dr. Sócrates em nosso manifesto: "A cultura dos povos colonizados está organizada nas metrópoles do mundo ocidental. Ela foi incorporada ao sistema ocidental de classificação cultural. Étnico, Afro, Latino, Mundial... são todos nomes que dão aos ocidentais os meios de reconhecimento e diferenciação: porque é Afro, não é nosso."
A mesma lógica se aplica à comunicação. "Newsletter" é um nome que organiza nosso relacionamento com você em algo transacional, extrativo, corporativo. Diz a você quem você deve ser nessa troca: um lead, uma métrica, um dado demográfico.
Recusamos o nome porque recusamos o relacionamento que ele exige.
A Encruzilhada como Método
Por isso, escolhemos outro nome: Sinais da Encruzilhada.
A encruzilhada é onde Exu se encontra. Èṣù-Elegba. Laalu-Ogiri Oko. Exu de Candomblé. Echú. Legba. Leba. Exu de Quimbanda. Obi. Lucero. Muitos nomes através da diáspora, um mensageiro. Orixá da comunicação que nunca chega intacta.
Exu nos ensina que a distorção não é fracasso. É fidelidade.
Quando enviamos um sinal, sabemos que ele chegará distorcido. Pela distância. Pela história. Pelo ruído do império. Pelo seu próprio contexto, suas próprias lutas, sua própria escuta. Isso não é algo a ser corrigido. É algo a ser honrado.
A encruzilhada é também onde Fanon diagnosticou a ferida. O colonialismo não é um mal-entendido. É uma colisão. A arma encontra o corpo. A corrente encontra o tornozelo. A doutrina encontra a alma.
Não fazemos música sobre essa ferida. Fazemos música a partir dessa ferida. A diferença é tudo.
Trinta Anos de Encontros
Nossa lista de contatos não foi comprada. Não foi coletada. Não foi negociada nos mercados de dados da economia da atenção.
Foi coletada um encontro de cada vez, ao longo de trinta anos.
1995, porão do Freitags Bar, Berlim-Mitte. Um imigrante brasileiro na porta, recolhendo moedas. Alguém escreveu um e-mail em um guardanapo e entregou a ele. Seu nome ainda não era DJ Garrincha.
2000, Fischladen, Friedrichshain. Outro porteiro. Outro guardanapo. Dr. Sócrates.
Feiras de discos em São Paulo, Kansas City, St. Louis. Conversas após painéis. Cartões de visita entregues com uma pergunta. Pistas de dança no YAAM e no Weltruf Kiel onde, à luz da manhã, alguém disse: me mande o que vier a seguir.
Esses não são indícios. São encruzilhadas. Cada endereço é um momento em que a música se tornou conexão, em que o encontro se tornou algo que vale a pena lembrar.
O que autorizamos
No rodapé de cada e-mail, há um link. Cancelar inscrição. Atualizar suas preferências. Palavras coloniais para ficar, mas ressentir-se ou partir silenciosamente.
Oferecemos um link diferente: Liberte-se.
Você não nos deve nada. Fique, porque a ferida também é sua. Fique, porque a música é boa. Mas não fique por obrigação. Obrigação é a emoção do colonizador.
E para aqueles que ficam, oferecemos algo mais: reprodução total autorizada.
Pegue. Imprima. Publique. Traduza. Envie para alguém que precise. Não possuímos esses sinais. Somos meramente seus transmissores atuais.
O que vem a seguir
Sem cronograma. Sinais, quando algo chega na interseção da memória e do combate.
As transmissões futuras podem conter:
Despachos da Botany of Resistance
Notas de campo de viagens em busca de discos
Arquivos de ancestrais (Emory Douglas, Lélia Gonzalez, Aimé Césaire)
Uma audição: descrição de uma faixa, não incorporada
Correspondência: respostas a quem escreve
O pôster: algo destacável, imprimível e compartilhável
Somos a Tropical Diaspora Records. Berlim, 2015. Mas nos reunimos desde os anos 90 em porões, ocupações e qualquer espaço que nos acolhesse.
Nosso logotipo é uma mulher com a forma do Atlântico. Seu cabelo representa as correntes que a carregaram. Seu cabelo também representa as raízes que permaneceram.
É isso que somos.
É por isso que enviamos sinais, não newsletters.
Autorizamos a reprodução total ou parcial desta publicação do blog.
Reprodução autorizada.