Por que o blog de uma gravadora escreve sobre uma revista palestina de 1970, um manifesto anticolonial e uma eleição presidencial brasileira?
Porque todos os três fazem a mesma pergunta: quem tem o direito de definir o mundo, e quem decide o destino dos outros—e o que acontece quando os oprimidos perdem a capacidade de falar por si mesmos?
1. A Capa de 1970: Os Oprimidos Pegam a Teoria
Observe a capa da Al-Hadaf (O Objetivo), publicada em Beirute em 18 de abril de 1970. Lênin está no centro, cercado por trabalhadores e soldados. A manchete diz "Lênin e o Leninismo: 100 Anos". A lista de artigos inclui "Diante da Máquina Israelense" e "Guerra Popular e Construção do Partido".
Isso não é nostalgia. O movimento de libertação palestino de 1970 se colocava dentro da linhagem mundial da luta anticolonial. Lênin aqui não é um símbolo de Estado—ele é o sinal de que os oprimidos podem pegar a teoria como arma. A capa declara que a luta palestina não é um "conflito regional", mas parte de um projeto emancipatório global. Tirar das pessoas o direito de usar essa linguagem é escrever a impotência em nome delas.
2. O Manifesto: Quando a "World Music" se Torna Continuação Colonial
O manifesto da Tropical Diaspora Records ataca outra frente. Ele argumenta que o Ocidente usa categorias como "World Music", "Afro" e "Latin" para transformar a cultura dos colonizados em algo que os ocidentais possam reconhecer, consumir e discutir. O colonizador não precisa mais enviar tropas—ele só precisa se tornar aquele que "entende" você.
O manifesto cita o poema de Ikwunga: as bombas são feitas em Londres, mas o bombardeio é no Congo; os tanques são construídos na Rússia, mas o bombardeio é em Angola; o cacau cresce na Nigéria, mas compramos chocolate da Bélgica. Essa é a verdade do centro e da periferia—os recursos fluem para fora do Sul, a violência flui para dentro do Sul, e o poder de interpretação permanece no Norte.
A parte mais insidiosa: ensina o colonizado a se ver pelos olhos do colonizador. As compilações de World Music se tornam "discos de mesa de centro" que fazem intelectuais brancos se sentirem informados enquanto transformam culturas vivas em espécimes. Como diz o manifesto, a pior parte é que "eventualmente, ela se torna o único meio que o nativo tem de falar sobre sua própria cultura".
3. Brasil: Lula e a Opção da Barbárie
Agora, o Brasil.
Rosa Luxemburgo escreveu "socialismo ou barbárie" em 1915. Isso não é retórica. No Brasil de hoje, essa escolha tem um rosto.
O adversário de Lula é Flávio Bolsonaro—filho de Jair Bolsonaro, que cumpre 27 anos em prisão domiciliar por planejar um golpe. Flávio não é um opositor de direita comum. Ele promete dobrar o Brasil ao "Escudo das Américas" de Trump, entregando a política externa a Washington. Recebeu o apoio de Netanyahu. Sua plataforma inclui "reconstruir relações com Israel, Argentina e Estados Unidos".
O que o governo Lula fez? Quando a Corte Internacional de Justiça tratou das obrigações de Israel, o Itamaraty emitiu uma declaração exigindo que Israel "cumpra suas obrigações quanto às necessidades básicas da população civil de Gaza e respeite e proteja seus direitos humanos". O próprio Lula chamou o ataque a um hospital em Gaza de "tragédia injustificável". No plano doméstico, os vetos de Lula foram derrubados pelo Congresso, proteções ambientais foram enfraquecidas, e os direitos de comunidades indígenas e quilombolas estão sob ameaça. Mas pelo menos o veto existiu. Pelo menos alguém está resistindo.
E o outro lado? O campo de Flávio é o mesmo que chama terras indígenas de "recursos inexplorados". O governo de seu pai acelerou o desmatamento da Amazônia e desmantelou os órgãos de proteção indígena. Isso não é especulação—é registro.
4. Por Que uma Gravadora Escreve Sobre Eleições
Porque a premissa da Tropical Diaspora Records é esta: os colonizados têm o direito de falar do seu próprio jeito, sem serem categorizados, empacotados e consumidos pelo Ocidente.
Se o Brasil eleger um governo que entrega a política externa a Trump, a Amazônia ao agronegócio e os direitos indígenas ao "desenvolvimento", então o país deixa de ser uma presença capaz de uma voz independente no Sul Global. Ele se torna um exportador de matéria-prima e vassalo geopolítico—a forma mais clássica de colonialismo.
A "barbárie" de Luxemburgo não é sobre um líder ser pior. Barbárie é uma condição: quando uma sociedade não tem mais a capacidade ou a vontade de impedir a pilhagem de pessoas e terras, a história anda para trás. A capa da Al-Hadaf de 1970 recusou essa regressão. O manifesto da Tropical Diaspora Records a recusa. A urna brasileira é outra forma da mesma recusa.
Não somos brasileiros. Não votamos. Mas, como uma gravadora nascida da história colonial, sabemos uma coisa: quando os colonizados ganham a capacidade de dizer "não", o sistema inteiro treme.
Lula não é perfeito. Seu governo cedeu, recuou e foi derrotado pelo Congresso. Mas eleições nunca são uma escolha entre o perfeito e o bom. São uma escolha entre espaço que ainda pode ser disputado e espaço que está completamente fechado.
A barbárie não é um fantasma do futuro. Ela já está nas escavadeiras da Amazônia, nas ruínas de Gaza, nas prateleiras da "World Music". Ela só precisa do seu silêncio para se completar.
Escolher Lula é recusar entregar esse silêncio.
Referências
-
Manifesto da Tropical Diaspora Records® — "Tudo o que não somos e nunca nos tornaremos: posição da Tropical Diaspora Records® diante da apropriação cultural." Disponível em: www.tdrgo.co/manifesto
-
Capa da revista Al-Hadaf (Beirute), 18 de abril de 1970 — Acervo Palestinian Papers. Disponível em: https://palpapers.net/download/al-hadaf-beirut-1970-18-04/
