The Appropriation of the Ideological Creativity of the Oppressed: Religion, Capitalism, and the Theft of Meaning

A Apropriação da Criatividade Ideológica dos Oprimidos: Religião, Capitalismo e o Roubo do Sentido

Um novo ensaio de José Maria Duran explora como o neopentecostalismo funciona como uma tecnologia ideológica do capitalismo neoliberal — capturando a criatividade simbólica das comunidades indígenas e afrodescendentes e reaproveitando-a para a acumulação.

Resumo

E se o crescimento explosivo do neopentecostalismo no Sul Global não for um fenômeno espiritual, mas econômico? Com base na teoria semiótica do linguista soviético Valentin Voloshinov — que argumentava que a ideologia é material, externa e se localiza entre as pessoas, em signos e práticas — este ensaio examina como o capitalismo captura e mercantiliza a criatividade ideológica das comunidades oprimidas.

O argumento se desenvolve em vários movimentos. Primeiro, ele recupera o materialismo radical de Voloshinov: a consciência não se expressa por meio de signos, mas é o próprio signo, produzido por meio da interação social e da luta de classes. Os signos são multiacentuados — arenas onde os interesses sociais colidem. A partir dessa base, o ensaio traça como o capitalismo deve dissociar o simbólico do real, tornando o mundo irracional para afirmar a "relação mecânica" do comportamento econômico racional — uma lógica que Marx identificou em sua crítica à religião como "o ópio do povo".

Mas a analogia do ópio vai além da metáfora. Assim como o comércio colonial de ópio impulsionou a acumulação imperial britânica, o ensaio argumenta que a expansão evangélica e neopentecostal de hoje acompanha o apetite extrativista do capitalismo pelo Sul Global. A teologia da prosperidade — na qual o espírito empreendedor e o ganho financeiro se tornam bênçãos divinas — transforma o tradicional "vale de lágrimas" em uma utopia capitalista. O ensaio examina estudos de caso desde Almolonga, na Guatemala (o "milagre" das cenouras gigantes, alcançado por meio de pesticidas e do negócio de transporte de um pastor), até as favelas do Rio de Janeiro, onde traficantes convertidos atacam locais religiosos de matriz africana.

A tese central é impactante: o neopentecostalismo é uma tecnologia de apropriação. Ele captura os trances, visões, possessões e práticas extáticas das populações indígenas e afrodescendentes — sua criatividade ideológica — e os reempacota em uma estrutura teatral voltada para a comunhão com o Espírito Santo ou, mais diretamente, com o capital. Os oprimidos tornam-se matéria-prima, produzindo gratuitamente sua própria alienação. Enquanto isso, o ensaio critica o esquerdismo secular por não compreender que, embora as crenças possam ser errôneas, os rituais não são falsos em si mesmos — eles revelam como a consciência social se engaja criativamente com os determinantes materiais.

O ensaio encerra com um contraponto: a recuperação da Igreja do Rosário dos Homens Pretos, em São Paulo, onde o organizador comunitário Júlio César descreve como elementos culturais africanos são reintroduzidos por meio da arte, criando uma "nova liturgia" que honra o passado enquanto constrói o futuro. Contra o apagamento alienante da memória, isso é resistência por meio da lembrança.

Perspectiva: Por que ler o texto completo?

Este ensaio é uma leitura essencial para qualquer pessoa que esteja lidando com os riscos políticos da religião no século XXI — e para aqueles que suspeitam que a linguagem de "bênção" e "prosperidade" mascara algo muito mais material.

Leia o texto completo para entender:

  • Como a semiótica de Voloshinov fornece uma estrutura materialista para analisar a ideologia não como falsa consciência, mas como prática material vivida — e por que isso é importante para a política contemporânea.

  • A lógica econômica oculta da teologia da prosperidade — como o neopentecostalismo se alinha organizacionalmente, teologicamente e socialmente a uma classe média voltada para o consumo, funcionando como um "programa ideológico do neoliberalismo" que reajusta as mentes dos explorados.

  • A mecânica da apropriação cultural como acumulação — como rituais indígenas e afrodescendentes são cooptados, neutralizados e transformados em mercadorias diretamente envolvidas na acumulação capitalista.

  • Por que a esquerda secular continua perdendo o debate religioso — e o que seria necessário para se engajar seriamente com as dimensões simbólicas e rituais da vida social sem descartá-las como mera superstição.

  • Um alerta sobre o irracionalismo no pensamento contemporâneo — de Spengler a Harari, o ensaio traça como reduzir a realidade a "histórias em que acreditamos" mina o projeto humanista de emancipação fundamentado no conhecimento das condições materiais.

  • Um contraexemplo esperançoso — a comunidade do Rosário dos Homens Pretos e sua recuperação criativa do patrimônio africano como uma prática viva de resistência.

O texto completo entrelaça semiótica, economia política marxista, teologia da libertação e detalhes etnográficos em um único argumento: a batalha pelos signos é uma batalha pela própria realidade. Para entender como o capitalismo sobrevive — e como ele pode ser resistido — devemos entender como ele se apropria da própria criatividade daqueles que oprime.

Leia o ensaio completo: "A Apropriação da Criatividade Ideológica dos Oprimidos"